domingo, 19 de março de 2017

Dia do Pai

Panquecas, desenhos e palavrinhas.

Chuck 'n' Roll


Chuck Berry (1926 - 2017)

quinta-feira, 16 de março de 2017

"Muhammad Ali", de Sybille Titeux e Amazing Améziane



"Boxing was nothing. It was‘t important at all. Boxing was just meant as a way to introduce me to the world."

terça-feira, 7 de março de 2017

T2



Aí estão os 40, by geração '77. Três amigos já + o 'Animals' dos Pink Floyd e o Taxi Driver.
E depois há o T2.
T2 é uma visita a nós próprios. 
«So, what you've been up to ? for twenty years ?». Assim começa o reencontro. 
De Renton com Sick Boy no pub, enquanto interrompe a tacada no bilhar. Mas também o nosso. Connosco. Esta pergunta é para nós. Somos nós que estivemos fora. 20 anos. A tratar da vida. O que é que fizemos. Onde é que fomos. Quem conhecemos. O que nos fizeram. O que escolhemos. 
«Não fizeste nada de especial. Tens três filhos e isso já não é mau.», diz-me o Sérgio.

... o que mudámos, onde falhámos, quantos golos marcámos ou que ficaram pelo caminho.... o que... 


“A idade é cruel, e isso é uma terrível lição que não podemos evitar. Tentamos aceitá-la o melhor que podemos ao longo da nossa vida. Mas o Danny di-lo na perfeição: quando somos novos, nunca paramos para pensar no tempo. E à medida que envelhecemos, percebemos que é o tempo que não pára por nós, e já não nos sobra muito." (...)
“Achamos que somos as mesmas pessoas que éramos,” (...) “mas quando olhamos para trás há tantas coisas que vemos de maneira diferente, coisas que nos marcaram sem termos consciência disso… (...) Um filme como este força-nos a compreender que já não temos a idade que sentimos que temos.”, agora quem fala é o Ewen Bremner (aka 'Spud').

T2 é um confronto. Com o que ficou para trás, e para onde é que vamos agora. 
Até temos medo de abrir a porta e entrar. Para não estragar. Mas depois o filme começa e esqueces-te disso tudo.

sábado, 4 de março de 2017

Os Renegados do Futsábado


É difícil explicar o que aconteceu esta semana no relvado do Estádio Pinto Basto, casa do Clube Internacional de Foot-Ball, sem parecer burlão ou basófia. Não foi apenas um jogo de futebol. Foi muito mais do que isso.
Comecemos pelo princípio, quando o Zé V.A. me perguntou se não arranjava uma equipa de oito macacos para fazer um treino contra o 'Olimpico', a sua equipa de futebol amador no torneio do CIF. À cabeça vieram-me logo o mano JT e a turma do 'Futsábado'. Tínhamos de escolher a dedo. Para a baliza era fácil, o Jony Mendonça. Centrais iam ser o Big Man Calhas e o Guarino, do All-Star. O corredor esquerdo era para o Tomás, ex-Alheira e parceirinho do Rio, e à direita iam variar o Many Jr., que também podia jogar a extremo esquerdo, com o Miguel "ballon d'Or", que joga em todas as posições. O miolo ficava entregue ao mano velho João Tiago, que calça colheres em vez de botas, e ao Seixas, para dar profundidade, força e o pau que fosse preciso. Na frente tínhamos que ser o 'Hortelança' e eu. Equipa para ir lá e ganhar. Era um 8x8, com dois de fora sempre a rodar.

Duas semanas e uns mails depois. tínhamos jogo marcado: quarta-feira, às nove e meia da noite. "Nós jogamos de preto. Apareçam de vermelho." Obrigado, Zé. Essa foi de amigo !
No meu último e-mail para a nossa equipa disse-lhes que tinha a honra no prego e que não me deixassem ficar mal. "Por nós o cobrador vai morrer de fome.", foi uma das respostas que recebi. Que pérola.
Começámos a chegar às 9 e 10. Guardámos as coisas nos balneários da cave e fomos para o sintético. Com fome de bola, montámos logo uma rabia no centro do campo 15. Urros, gargalhadas e meias em baixo. Tudo com vontade e bem disposto. Enquanto isso, a malta do Olimpico aquecia à profissional. Alongamentos, corrida curta, salto e foge, mas bola, népias. Humpf...
À hora marcada, o árbitro explicou como ia ser com o apito e começou.

Os primeiros 15/20 minutos foram para estudar o adversário. Talvez algum respeito a mais. Mas também jogávamos fora e precisámos de tempo para compreender as medidas do campo e interiorizar os fora-de-jogo. Tentávamos trocar a bola e correr para a frente com ela dominada. Para ver o que dava. Alguns lampejos, mas nada de especial. Até que, ao fim de uns sprints inúteis e de umas golfadas de ar gelado que só emperravam mais os músculos, uma boa abertura meteu o Hortelão na cara do golo, e zás!, o primeiro estava feito. Êta, decisão! 
Íamos agora sofrer o que tínhamos começado. Todos percebemos isso. Junto à linha, o nosso Mister dava as suas indicações. Mané Mendonça, pai dos gémeos e senhor de carrinhos de gala aos sábados de manhã, orientava o team. "André, a posição. João Tiago, fecha atrás. Calheiros, olha as costas. Many, esse é teu." Um tratado. Acho que sofreu mais do que a gente.
A pressão começou, obviamente, a ser maior. Estavam feridos e parecia uma questão de tempo o golo do empate. O Jony defendia muito, bem... tudo, e a defesa cortava o que podia. Às tantas, acho que o número 8 deles tira um da frente e dispara de fora da área. O nosso keeper ainda lhe raspa com a ponta dos dedos, mas ia com selo de baliza, apelido que ouvi alguém gritar atrás de mim. É aí que aparece Guarino, o Zen, esse pêndulo defensivo, a substituir o Jony e a aliviar de cabeça em cima da linha. Esse lance foi como um golo. E puxou por nós. Foi a força toda da equipa.

Partimos atrás do segundo golo, que aconteceu para aí uns cinco minutos depois. Tiro de fora da área do nosso "ballon d'Or", que é um atleta do cacete e que adora chutar colocado e em força. Pelo meio ainda tivemos um livre indirecto dentro da área deles que só por milagre é que não entrou. Mas falhámos e, pouco depois, aproveitando uma série de erros, o Olimpico reduz para 1-2. Uma estalada na cara. Por isso, continuámos o que estávamos a fazer. Construir e levar para a frente. A defender, técnica do "harmónio". 
De repente, a bola sobra para mim. Estou ligeiramente à frente do centro do terreno, topo o Hortelão desmarcado e só com o Redes deles pela frente, e antes que me caísse um tipo em cima, consigo tocar-lhe a bola a tempo. Forte como é, desembaraça-se do Redes e fica com a baliza à mercê. 1-3 para nós. 
O jogo estava louco, com eles a carregarem cada vez mais, e um penalty que não sei bem de onde é que apareceu. Para equilibrar as coisas, 'tá bem. 2-3.
A questão é que estávamos teimosos de raça. Perder o braço de ferro não era opção. Com uma entrega e um coração do tamanho da Terra, fincámos os dentes numa pedra e subimos no relvado para fazer o 2-4. O puto Miguel, quem mais ? A assumir.

O jogo devia ter terminado, mas pedem-nos mais 5 minutos na mira do empate. 
O Olimpico balanceava-se todo lá para a frente e nós a trancarmos tudo a cadeado. O harmónio libertava agora as suas flechas venenosas. E lá vinham eles. A espumar.
A bola sobra para o mano que a recebe no meio campo, roda, liberta-se de dois ao mesmo tempo e eu descaio para a direita num movimento de olhos fechados que fazemos juntos há mais de vinte anos. Os meus passos levam a conta dos olhos dele. Entrega-me a menina com todo o açúcar que se pode pedir. Já dentro da grande área, tiro um defesa da frente com uma finta curta e remato a bola para o sítio onde ela pertence, mas o Redes sacode para a linha de fundo. Merece que lhe passe a mão na cabeça. E eu passo. 
O tema é que tínhamos provado o sabor a sangue. Com uma moral que nem eu conhecia, continuámos a puxar do gatilho. É então que alguém me passa novamente a bola. Nesta fase, a velocidade já não me permite fixar todos os pormenores. Estou na grande área outra vez. Já nem vejo mais nada. Só implorava que a bola me fizesse feliz. Saco outra vez um defesa da frente. Parece que não aprendeu. A mesma finta curta, só que desta para marcar! 2-5
Bola ao centro que viaja rapidamente para a esquerda. Agora é o Tomás quem leva a bola. Parece um TGV. Eu sigo toda a jogada do outro lado. Sei perfeitamente o que ele vai fazer. Quando chega ao fim da linha, quase quase a sair dos carris, cruza nas costas da defesa, a rasgar toda a grande área, com a bola a perfazer um arco para o redes não lhe meter a pata. Esta é para o meu pé direito entrar e fuzilar. Catrapumba ! e bola no fundo das redes. 2-6.
Do outro lado estão comatosos. O que é que é isto ?, leio-lhes nos rostos fechados. Só que havia tempo para mais um. E o Tomás fez tudo para o merecer. Outra vez a locomotiva. Vem cego de contra-ataque. Nem sei quantos sacou do caminho. Só sei que, talvez uns treze segundos depois de lhe cair a bola nos pés, desfere uma bomba para o canto direito do ninho. 2-7 ! e ding, dong, KO !

Oh, alegria insuperável. Que orgulho ! 10 brothers a jogar de braço dado. Feras de calções. Só a amizade não explica o que se passou. Ali éramos uma espécie de amor. Éramos a correr pelo parceiro do lado. Suar o suor dos outros, e ignorar todas as dores e o cansaço do mundo. 
Ter a honra no prego é uma coisa. Fazê-los pagar com juros é outra. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Black and Blue




'Moonlight', de Barry Jenkins

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

domingo, 19 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

"Civil rights and riots, afros and Watergate." *


* acho que actualmente isto só vai lá novamente assim. Com as devidas adaptações. 
Grande disco, by the way.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

La pelota no se mancha


«Se dependesse dos argentinos, tínhamos de entrar em campo com uma metralhadora cada um e matar Shilton, Stevens, Butcher, Fenwick, Sansom, Steven, Hodge, Reid, Hoddle, Beardsley, Lineker. Mas nós até nos tentámos alhear de tudo isso. Eles eram, simplesmente, os nossos adversários. O que eu queria, apenas, era fazer-lhes umas chapeladas, meter-lhes umas cuecas, fintá-los, marcar-lhes um golo com a mão e mais outro, o segundo, que fosse o maior golo da história.
Lembro-me bem. Quando os jornalistas se inteiraram de que íamos jogar contra a Inglaterra nos quartos-de-final nós até evitámos falar, porque sabíamos bem quais iriam ser as perguntas: como íamos gritar os golos que lhes marcássemos, se íamos fazer fuck you à Thatcher, se íamos dar um murro ao Shilton. Sabíamos o que aí vinha, por isso decidimos manter-nos serenos e alheados disso. Em todo o caso, por dentro, era uma questão que mexia connosco. Asseguro-vos que, por dentro, eu estava a arder. Explodia-me o coração e era preciso jogar com ele.
Na nossa preparação para o jogo, porém, o tema da guerra não passou desapercebido. Nem podia passar ! A verdade é que os ingleses nos tinham morto muitos rapazes, ainda que se os ingleses tiveram culpa, culpa tiveram também os argentinos que mandaram os nossos rapazes enfrentar a terceira potência mundial em sapatilhas de pano.
(...)
Desse golo com a mão não me arrependo, de todo. Não me arrependo! Com todo o respeito que me merecem os adeptos, os jogadores, os dirigentes, não me arrependo nem um bocadinho. Porque eu cresci com isso, porque em Fiorito eu fazia isso permanentemente. E acabei por fazer o mesmo diante de 100 mil pessoas que nem se aperceberam... Porque toda a gente ficou a gritar golo. E, se gritaram, é porque não tinham qualquer dúvida. Por isso, como podemos atribuir a culpa ao coitado do tunisino?
Ganhei um processo a um diário inglês que, mais tarde, escreveu num título "Maradona, o arrependido", coisa que jamais me passou pela cabeça. Nem aí, imediatamente, nem passados 30 anos... Nem até ao meu último suspiro, antes de morrer. Como respondi a um jornalista inglês, da BBC, um ano depois: "Foi um golo totalmente legítimo, porque o árbitro validou-o. E quem sou eu para duvidar da honestidade do árbitro, certo?" O mesmo disse a Lineker, quando ele esteve em minha casa, em Buenos Aires, para me fazer uma entrevista , também para um canal inglês.
(...)
Voltou a perguntar-me se não me sentia mesmo mal por ter marcado aquele golo com a mão e eu disse-lhe que era um jogo, que se o árbitro não tinha percebido, isso era parte do jogo. E Lineker conformou-se, não disse absolutamente mais nada. Ou disse: "São coisas do futebol." Enorme, o Lineker. Acabamos sempre a falar assim quando nos vemos.
Shilton, esse sim, ficou e vai ficar para sempre com raiva de mim. Disse: "Não vou convidar Maradona para o meu jogo de despedida." Também, quem é que quer ir ao jogo de despedida de um guarda-redes ? E de Shilton ?!
(...)
Para mim, foi como roubar um ladrão: acredito que tenho cem anos de perdão. Na conferência de imprensa, não sabia como sair daquela enrascada. (...) E a alguém respondi, de passagem, que tinha sido com "a cabeça de Maradona e com a mão de Deus". Disse-o a pensar em todos os rapazes que tinham morrido, em todos eles - e aí sim, sensibilizei-me. Disse que tinha sido "a mão de Deus" que me tinha ajudado a fazer aquele golo. Não que eu acreditasse ser Deus, nem que a minha mão fosse a mão de Deus: acreditava, simplesmente, que tinha sido Deus, com a sua mão, a pensar em todos os rapazes cujas vidas foram destruídas nas Malvinas, a fazer aquele golo. E é isso que sinto ainda hoje, 30 anos depois.
(...) Messi pode ser maior do que eu. Pode ser, ou pode não ser. Agora, eu marquei dois golos à Inglaterra que valeram pelos rapazes caídos nas Malvinas e pelos familiares dos rapazes caídos nas Malvinas. Dei-lhes um consolo, e isso mais ninguém vai poder fazer. Mais ninguém ! Porque não vai haver outra guerra, porque não pode haver outra guerra, porque isso queria dizer que tínhamos voltado a ter um Galtieri e ninguém quer um Galtieri de volta.»

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

"a reacção dos brancos a um homem negro na Casa Branca"

«(...)
Até que chega George W. Bush, um Presidente horrível que foi um verdadeiro desastre e que fez um dano tremendo ao país. Então, em 2008, nós enquanto sociedade fizemos uma coisa extraordinária, elegendo Barack Obama. Nesse momento senti-me feliz e esperançoso por finalmente termos conseguido passar para a fase seguinte na concretização do que queríamos ser enquanto país. Bom, afinal, estava enganado. Estávamos todos errados. Porque o que a eleição de Obama fez foi enfurecer as pessoas da direita, ao ponto de o bloquearem durante oito anos. Renegaram-no, não lhe ofereceram o respeito dado aos outros presidentes no passado e criaram uma reacção tremenda. Essa reacção chama-se Donald Trump. Claro que estou a simplificar a história, mas no essencial foi isto: a reacção dos brancos a um homem negro na Casa Branca.
(...)
Estamos a viver num país que é um puro caos. São incompetentes e não sabem o que estão a fazer. Andam a criar problemas que não estão preparados para enfrentar. E, para dizer a verdade, não sei onde isto irá parar. A única coisa inspiradora é a enorme oposição que está a movimentar-se. A marcha no dia 21 de Janeiro, em Washington, a que a minha mulher Siri e a minha filha se juntaram - e que se viu por toda a parte nos Estados Unidos e até na Europa -, foi algo incrível de observar. Nem nos velhos tempos das marchas contra a guerra do Vietname houve um único dia neste país em que tanta gente saísse para a rua. E, agora, com esta ordem presidencial que impede a entrada de pessoas de certos países, houve outra manifestação espontânea. A minha esperança é que esteja a ser criada uma nova geração de activistas que passem para um outro patamar, além das acções de rua - que concorram para cargos a nível local e se envolvam nas tomadas de decisão. Se isso não acontecer, o país vai ser tomado por maníacos que agora, com o poder que têm, podem fazer mais ou menos o que querem. Não nos enganemos: ainda há um grande número de pessoas que gostam de Trump.
Está zangado ?
Sim, estou muito zangado. Zangado connosco por termos eleito esta pessoa. Temos regras muito estranhas, em que alguém que ganha pelos votos pode perder as eleições. Trump é um Presidente legítimo segundo as regras deste país, não há qualquer dúvida sobre isto. Com ele, o silêncio já não é uma opção, temos todos de falar.»

(Paul Auster, in 'Expresso', 4.02.2017)